sexta-feira, 11 de maio de 2012

LIVRO: As Tecnologias da Inteligência: O Futuro do Pensamento na Era da Informática - Pierre Levy

Breve Apresentação: "Um dos principais agentes de transformação das sociedades atuais é a técnica. Ou melhor, as técnicas, sob suas diferentes formas, com seus usos diversos, e todas as implicações que elas têm sobre o nosso cotidiano e nossas atividades. Por trás daquilo que é óbvio, estas técnicas trazem consigo outras modificações  menos perceptíveis, mas bastante pervarsivas: alterações em nosso meio de conhecer o mundo, na forma de representar este conhecimento, e na transmissão destas representações através da linguagem.

Dentre a grande quantidade de técnicas existentes, Lévy decidiu privilegiar, nesta análise, as técnicas de transmissão e de tratamento das mensagens, uma vez que são as que transformam os ritmos e modalidades da comunicação de forma  mais direta, contribuindo para redefinir as organizações.

Lévy propõe aqui o fim da pretensa oposição entre o homem  e a máquina. Ataca também o mito da  “técnica neutra”, nem boa, nem má. Mostra como ela está sempre associada a um contexto social mais  amplo, em parte determinando este contexto mas também sendo determinada por  ele. Desta forma, a técnica torna-se apenas uma dimensão a mais,  uma parte do conjunto do jogo coletivo, aquela na qual desenham-se as conexões físicas do mundo humano com o universo."

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quarta-feira, 9 de maio de 2012

Resenha - LIVRO: Sociedades Camponesas¹


Texto resenhado por Silvânia Araújo,  acadêmica  do curso de Doutorado do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal da Paraíba.

WOLF, Eric R. Sociedades camponesas. 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1976.¹

Eric Wolf apresenta, em uma perspectiva antropológica, a questão camponesa a partir dos problemas e aspectos econômicos de sua formação e organização histórica. As comunidades camponesas seriam, para Wolf (1976), o resultado do aparecimento da civilização no lugar das sociedades primitivas, e o marco da civilização seria definido, justamente, pelo aparecimento e desenvolvimento de uma ordem social complexa, “baseada na divisão social e de poder assimétrica entre os que governam e os que cultivam”. O camponês sempre existe  dentro de um sistema maior, no qual está em posição subalterna,  apesar de ter acesso  à  terra e,  através dela, conseguir um grau importante de autonomia.

Assim, no primeiro capítulo do texto, Wolf (1976) inicia sua discussão com a diferenciação entre o camponês  e  o  “cultivador  primitivo”.  Para ele,  enquanto este último realiza a troca dos excedentes diretamente no seu grupo social (relação simétrica), o camponês transfere seus produtos ou excedentes para as mãos de um grupo dominante (não simétrica). A seguir, situa o surgimento da agricultura na Ásia, como processo civilizatório (mais ou menos, 9 mil anos a. C. segundo dados arqueológicos). No México, por volta de 7 mil a.C. e de maneira plenamente estabelecida em torno de 1500 a.C., onde se deu uma diferenciação na divisão funcional do trabalho.

O autor estabelece os conceitos de “mínimo calórico” e “excedente” para determinar o quanto de produção é necessário para a manutenção da vida do cultivador rural e a parte da produção que é efetivamente transferida. Separa dessa produção o que seria o “fundo de manutenção”, das partes que teriam uma função social como o fundo cerimonial, o custo relativo às participações sociais; o fundo de aluguel, para o resgate de dívidas com alguém que exerça um poder superior e, por fim, o fundo de poder, que é a parte apropriada pelos dominadores.

Wolf (1976) também mostra, utilizando-se de diferentes situações geográficas, o papel  das cidades relacionado à crescente complexidade social e a relação das comunidades camponesas com os centros urbanos em diferentes momentos da história e o Estado como forma constituinte da civilização. Somente nesse momento, a partir de relações exteriores a seu extrato social,  segundo ele, o camponês assume um papel na relação com os detentores do poder. 

Apresenta o lugar do campesinato como espaço produtor de reservas de riquezas e a posterior perda de importância em função da revolução industrial. Dessa forma, descreve o “dilema camponês”, ou seja, a necessidade de produzir o mínimo calórico, o fundo de manutenção e os fundos cerimoniais em contraposição às demandas externas e limitações com o tamanho da terra e força de trabalho. Nesse ponto, o autor apresenta as teses de Chayanov para justificar a lógica campesina de trabalhar apenas no limite da satisfação do consumo familiar.  Para Wolf (1976), portanto, estas características econômicas são também definidoras do campesinato, as quais podem ser relacionadas às diferentes dimensões contidas na noção de território:

• A unidade camponesa  de  produção  orienta-se na busca de garantir produção visando a:

a. um fundo de manutenção: o autoconsumo que propicia o mínimo calórico para a família, a produção de sementes para a próxima safra, a alimentação animal e o reparo de suas ferramentas e instalações – está relacionado à dimensão material do território;

b. um  fundo cerimonial  que pretende a reprodução social e cultural  do grupo familiar e comunitário  ao qual pertence  –  está relacionado à  dimensão simbólica  do território;

c. um  fundo de aluguel  objetivando atender exigências que não vieram de seu trabalho na terra  e sim, do atendimento a setores dominantes da sociedade  que se apropriam dos excedentes produzidos pelas unidades camponesas – está relacionado à dimensão das relações de poder que envolvem o território (acesso, domínio e uso).

• A unidade camponesa é tanto uma unidade econômica como um lar – articulação entre  trabalho, produção e consumo (culturalmente  definido)  –  e suas despesas não são ditadas  diretamente pela existência de um sistema econômico, governado por preços e lucros.

No segundo capítulo do texto, Wolf (1976) aborda os aspectos econômicos do campesinato, apresentando alguns sistemas utilizados para extrair  o  sustento e  os excedentes, os “ecótipos camponeses”. Para ele, “ecótipo” seria o sistema de transferência de energia do meio ambiente para o homem. O autor divide os ecótipos em “paleotécnicos” (primitivos da primeira revolução agrícola – força de trabalho humana e animal) e o “neotécnico”  (com a utilização de máquinas e implementos gerados pós- revolução industrial). 

No ecótipo paleotécnico, Wolf (1976)  descreve diferentes sistemas de uso da terra: pousios de curta e longa duração, pousios  setoriais e cultivos permanentes ou hidráulicos, a eficiência e importância de cada um deles. Além disso,  esse ecótipo tomou duas variantes principais: o ecótipo “Mediterrâneo” e o ecótipo “Continental ou transalpino”,  que misturam implementos rudimentares  com diferentes formas de pousios. Quanto aos ecótipos neotécnicos, ele destaca que foram utilizados a partir do século XVIII e são assim descritos: horticultura especializada, fazendas leiteiras, cultivo composto e, o último, relacionado com as culturas agrícolas dos trópicos. O autor apresenta as formas de relacionamento do camponês com o mundo exterior à sua propriedade. Descreve os sistemas de  zadrugas, da Eslávia meridional  no século XIX; formas comunitárias existentes na Índia e Europa medieval com as corporações, o jajmani; além de outras formas mais modernas de relacionamento de mercado em redes de trocas, como os mercados secionais.

Na parte final desse capítulo,  Wolf  (1976)  discorre sobre a disposição dos excedentes camponeses  e os tipos de domínio. Assim, estuda os mercados e as vinculações do campesinato, além das formas de influência do mercado com a composição dos preços das mercadorias, bens e serviços e os fatores de produção: terra e trabalho. Observa essa relação de mercado na Índia e na Europa e as diferentes formas de domínio sobre os camponeses, como por exemplo, os tipos: o patrimonial (feudal), de caráter hereditário; o prebendal, não hereditário,  ao contrário, representa concessão de rendas, uma de suas formas é a concessão pelo Governo e, o último, o mercantil, a terra vista como propriedade privada.  De acordo com o autor, essas três formas de domínio sobre a terra não  se excluem necessariamente e, na maior parte dos casos existentes, elas aparecem juntas.  Apresenta, para concluir, algumas experiências denominadas por “domínio administrativo”, reguladas pelo Estado, como as vivenciadas na União Soviética, com o  kolkhoz  (domínio administrativo, cujos maiores produtos, geralmente cerealíferos, são cultivados coletivamente) e o  sovkhoz  (outro domínio administrativo em que as fazendas são trabalhadas por turmas de lavradores que não tem qualquer vínculo com a terra); na China Popular, com as comunas  (que tentaram também agrupar um grande número de cultivadores em brigadas de produção e consumo sob os auspícios do Estado); e, no México, com os ejidos (que consistiam em lavouras inalienáveis concedidas a famílias específicas).  

No terceiro capítulo, Wolf (1976) discute os aspectos sociais do campesinato atribuindo, inicialmente, à família sua capacidade como unidade produtiva e sua varias ligações em termos de envolvimento econômico com outras famílias em termos horizontais e, em termos verticais, suas ligações com os detentores de poder. Para o autor, o grupo doméstico no campesinato se divide basicamente em família nuclear ou conjugal, que consiste em homem e mulher casados e sua prole; e família extensa, que agrupa em uma única estrutura certo número de famílias nucleares. Este  último grupo apresenta variantes conforme a sociedade de que faz parte. Dentre os tipos de família, Wolf (1976) destaca  que eles  guardam particularidades  próprias já que existem os membros permanentes, aqueles que precisam ser alimentados, alojados, vestidos e assistidos em outras necessidades num período de tempo prolongado, além da alimentação. Ele afirma ainda que a família extensa cria tensões que não são evidentes na família nuclear.

Quanto aos padrões de herança, o grupo doméstico sempre acaba por experimentar tensões. Por isso, a sucessão é regulada por normais especiais. Basicamente, existem dois sistemas de herança: 1) envolve a passagem de recursos a um único herdeiro ou herança sem partilha; e 2) envolve mais de um herdeiro ou sistemas de herança por partilha. De acordo com o autor, os sistemas de herança por partilha ou sem partilha podem ser mais diferentes, dependendo de terem ou não direitos sucessórios outorgados a todos os filhos ou somente aos varões. De fato, o campesinato se expõe continuamente a uma gama de pressões que se chocam contra ele e desafiam sua existência. São pressões seletivas que demandam a possibilidade de estratégias defensivas. Wolf (1976) nos coloca que essas pressões podem ser: 1) produzidas pelo ambiente; 2) emanadas pelo sistema social; e 3) emanadas da sociedade global da qual a propriedade camponesa faz parte. Tais pressões atingem todos os membros do campesinato, mas sempre uns mais que outros. Uma das estratégias defensivas indicadas pelo autor seria a seguinte: os grupos mais bem sucedidos a conjugar-se, diante do impacto das pressões, ajudando os mais problemáticos.

Com base nisso, ele ainda enfatiza que, em toda parte, os camponeses tendem a entrar em alianças que se mantem frouxamente, de modo a permitir a sua dispensa num período de provação severa. Essas alianças são chamadas por ele de  “coalizões”, ou seja, uma combinação ou ligação entre pessoas, facções e Estados, em geral, temporária.

Conforme seu critério, o autor distingue três tipos de coalizão camponesa:

1. O grau no qual são formadas coalizões entre pessoas que compartilham muitos interesses (coalizão multilinear) ou entre pessoas ligadas por um único interesse
(coalizão unilinear);

2. O número de pessoas envolvidas na coalizão. Ela por se  diádica  quando envolve duas pessoas ou dois grupos de pessoas, ou  poliádica quando envolve muitas pessoas ou grupos de pessoas;

3. O grau no qual são formadas as coalizões, tanto por pessoas com as mesmas oportunidades de vida, ocupando a mesma posição social, quanto por pessoas ocupando diferentes posições na ordem social.

Assim, as  coalizões podem envolver camponês com camponês, as quais são chamadas coalizões  horizontais; ou podem envolver camponeses e superiores fora do grupo, que são chamadas coalizões  verticais. Sob cada uma dessas condições ou sob todas elas juntas, os camponeses tem possibilidade de se encontrar de se encontrar em diferentes contextos sociais, lidando com diferentes indivíduos, engajados em diferentes atividades, estas por sua vez dirigidas a fins diversos. Para finalizar esse capítulo, Wolf(1976) discute  as coalizões unilineares e as multilineares, bem como o lugar dessas coalizões e a ordem social envolvente. Neste sentido, ele ressalta duas características da organização social: 1) a forte tendência à autonomia das famílias camponesas; 2) a forte tendência a formar coalizões numa base mais ou menos instável para objetivos a curto prazo.  Entretanto, finaliza afirmando: “entrando numa coalizão, a família não pode perpetuar-se a si própria”.

No quarto capítulo, Wolf (1976) ressalta o campesinato e a ordem ideológica, destacando que os camponeses fazem parte de uma ordem social mais vasta e se relacionam com ela através de suas coalizões, do mesmo modo participam de uma compreensão simbólica, uma ideologia, que se relaciona com a natureza da experiência humana. Essa ideologia consiste em atos e ideias cerimoniais e crenças, que preenchem diversões funções. No campesinato, uma ideologia tem significado moral e as relações entre as unidades familiares devem ser marcadas por um equilíbrio entre os interesses das unidades participantes e das coalizões que ligam o campesinato à sociedade mais ampla. Esse equilíbrio é validado pelo  cerimonial, categoria que gira em torno de um novo casamento e, por ele, a criação de um novo grupo doméstico. 

Quanto à  religião  camponesa, seus níveis de tradição não se explicam unicamente através de seus termos. Ela funciona para sustentar e equilibrar o ecossistema camponês e a organização social e também constitui  um componente da ordem ideológica mais ampla. É responsiva aos estímulos que  derivam tanto do setor camponês como da ordem social envolvente, por isso, a religião forja mais um elo que liga o campesinato a essa ordem. O sagrado camponês penetra no espaço da colheita e da saúde, tensionando simbologias próprias de caráter ideológico.  

O texto também estar disponivel em PDF. 
Para fazer Download acessar link:
http://www.4shared.com/office/llwdscPp/Resenha_do_Livro_Sociedades_Ca.html
 
 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

CNPq anuncia aumento de 10% nas bolsas de pós a partir de julho


A partir de 1º de julho, as bolsas de pós-graduação do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) terão um aumento de 10%, anunciou Glaucius Oliva, presidente do CNPq, nesta sexta-feira (4), durante o 23º Congresso Nacional de Pós-Graduandos, na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

REAJUSTE DAS BOLSAS
Hoje
Após 1º de julho
Mestrado
R$ 1.200
R$ 1.320
Doutorado
R$ 1.800
R$ 1.980

“Vamos oferecer 10% imediatamente, a partir do dia 1º de julho, com o compromisso assumido pelos nossos ministros e pelos nossos ministérios de que, no começo do ano que vem, até janeiro ou fevereiro, vamos completar esse aumento com o ajuste da inflação corrigida”, disse Oliva.

Segundo ele, os gastos com o aumento das bolsas no próximo ano serão incluídos na proposta da lei orçamentária de 2013.

Elisangela Lizardo, presidente da ANPG (Associação Nacional de Pós-Graduandos), diz que a notícia é positiva, mas que a associação manterá a campanha por um reajuste maior. “A gente precisa de cerca de 40% para melhorar um pouco a situação do pós-graduando”, afirma. O valor das bolsas está congelado desde 2008.

De acordo com cálculos da ANPG, o ideal seria que as bolsas de mestrado aumentassem dos atuais R$ 1.200 para R$ 1.672,16 (39,34%) e as bolsas de doutorado, de R$ 1.800 para R$ 2.479,78 (37,76%).


LIVRO: Educação ao Longo da Vida


Breve Apresentação: A educação de jovens e adultos está no cerne do debate sobre a exclusão social e sobre a questão da democratização do ensino, ou seja, do acesso de todos à educação, bem como da permanência. Este direito precisa estar garantido nas políticas públicas e deve, também, ser fomentado pelos fóruns de debates, entre os quais a Conferência Internacional de Educação de Jovens e Adultos (CONFINTEA).Esta Conferência, promovida pela UNESCO, mobiliza as instituições oficiais para, no campo internacional, debater e definir políticas públicas sobre a educação de jovens e adultos, como prioridade social. A VI Conferência Internacional de Educação de Adultos, a ser realizada no Brasil, na cidade de Belém do Pará, oportuniza a chamada de atenção para a política educacional e para as práticas escolares e não-escolares dessa modalidade de ensino na Amazônia. Com base na VI CONFINTEA e na educação de jovens e adultos na Amazônia Paraense, trazemos, nesta série de programas, três eixos temáticos para debate: (1) Educação de jovens, adultos e idosos: aprendizagem ao longo da vida; (2) Importância das práticas não-escolares ao processo de inclusão social e educacional de pessoas jovens, adultas e idosas e; (3) Políticas e práticas escolares de educação de jovens e adultos como direito à cidadania e formação de professores.

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domingo, 6 de maio de 2012

A Mulher Negra em "Conversa de Mulher"

O "Conversa de Mulher" debate/conserva sobre "A Mulher Negra", com a participação da cientista social Luciana Mafra. O programa foi realizado em 21 de março de 2012, dia esse instituído pela ONU como Dia Internacional da Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, e questiona a você, o que tu fazes da discriminação?

 

Resenha – LIVRO: As quarenta horas de Angicos:Uma experiência pioneira de educação*

José Willington Germano**

* Resenha do livro de Lyra, Carlos. As quarenta horas de Angicos: Uma experiência pioneira de educação. São Paulo, Cortez, 1996,196 p.
** Professor do Departamento de Ciências Sociais – UFRN.
Angicos tornou-se uma palavra emblemática para todos aqueles que se interessam pela educação popular. A cidadezinha localizada no sertão do Rio Grande do Norte foi o palco em que, pela primeira vez,Paulo Freire, em princípios de 1963, pôs em prática o seu famoso método de alfabetização de adultos. Dessa maneira, o trabalho, que até então era desenvolvido de forma incipiente no Recife, ganhou grande visibilidade em níveis nacional e internacional.

Em dezembro de 1962, um grupo de estudantes, em sua maioria universitários, realizou o levantamento do universo vocabular da população de Angicos preparando o terreno para a experiência que viria a seguir. Nos primeiros meses de 1963, esses estudantes, “católicos radicais”, criaram vários Círculos de Cultura e, sob o patrocínio do Governo do Rio Grande do Norte e da “Aliança para o Progresso” (programa de origem norte-americana), tornaram possível o emprego do referido método.

Fazer com que os participantes aprendessem a ler e a escrever e, ainda por cima, viessem a se politizar em 40 horas constituíam os objetivos fundamentais da experiência. Isso despertou enorme curiosidade, motivo pelo qual o trabalho de Freire e dos estudantes do Rio Grande do Norte correu o mundo. Em Angicos estiveram presentes observadores, especialistas em educação e jornalistas não somente dos principais meios de comunicação do Brasil, como do exterior. Para lá se deslocaram, por exemplo, representantes do New York Times, do Time Magazine, do Herald Tribune, do Sunday Times, do United e da Associated Press, do Le Monde. Finalmente, o próprio presidente João Goulart, junto com Aluizio Alves, governador do Rio Grande do Norte, compareceu ao encerramento das atividades dos Círculos de Cultura, na distante data de 2 de abril de 1963.

Muito embora o período imediatamente anterior ao golpe de 1964 tenha sido muito rico em movimentos, campanhas e programas de educação e cultura popular, a exemplo do Centro Popular de Cultura da UNE e de diversas outras iniciativas que proliferaram, notadamente, no Nordeste do Brasil, a verdade é que coube a Paulo Freire o destaque principal e que ganharia fama nos mais diferentes quadrantes do mundo.

O país vivia, então, um clima de muitas mobilizações em favor das chamadas reformas de base. O campo nordestino fervilhava com as Ligas Camponesas e com os Sindicatos Rurais que lutavam pela reforma agrária. Partidos reformistas conseguiram ampliar os seus espaços no parlamento, e políticos identificados de esquerda conseguiram ser eleitos para altos cargos executivos (governador, prefeito) em diversos estados e cidades importantes do país. De igual modo, a Igreja passou a se envolver mais com as questões sociais, e, no horizonte das relações internacionais, preponderavam a “guerra fria”, a revolução socialista de Cuba e assim por diante.

Nesse contexto, a educação passou a ser alvo de grande interesse por parte dos setores reformistas, com uma particularidade: uma acentuada ênfase na dimensão política da educação. Assim, o que estava em jogo, para além da alfabetização de milhões de adultos, adolescentes e crianças, dizia respeito à necessidade de politizar e conscientizar o povo para que ele pudesse participar efetivamente da vida do país e influenciar decisivamente na transformação da sociedade brasileira. Enfim, numa linguagem muito discutida atualmente, o que estava colocado como prioridade era o desenvolvimento de uma educação para a cidadania, para a organização da cultura, para a participação política de enormes contingentes populacionais.

É com esse espírito, pois, que a prefeitura do Recife, na época de Miguel Arraes, implementou o Movimento de Cultura Popular (MCP); em Natal, o prefeito Djalma Maranhão criou a Campanha “De Pé no Chão Também se Aprende a Ler”; em João Pessoa, surgiu a Campanha de Educação Popular (Ceplar), e a CNBB instituiu o Movimento de Educação Popular (MEB). Em síntese, nesse período surgiram dezenas e dezenas de iniciativas no campo educacional em que a politização constituía um item importante.

Convém ainda frisar que, não obstante quase todos esses movimentos terem feito uso de metodologias próprias, eles se deixaram inequivocamente influenciar pelo trabalho de Paulo Freire. Tanto é assim que em princípios de 1964, pouco antes do golpe, ao ser instituído o Plano Nacional de Alfabetização, o método de Freire foi oficializado pelo governo brasileiro, experimentando, assim, um notório processo de fortalecimento e de reconhecimento público.

A reação das classes dominantes e dos seus aliados norte-americanos, de amplos setores das classes médias e das Forças Armadas redundou na deposição de Jango e na implantação de um regime político de cunho ditatorial cuja principal preocupação era estancar, conter, as mobilizações sociais. É claro que a repressão atingiu duramente o campo educacional, a educação popular. Entre os atingidos encontrava-se, evidentemente, Paulo Freire: preso, processado, exilado, considerado subversivo.

Começa aí o périplo de Freire pelo mundo, tendo percorrido mais de 50 países, lecionado nos mais importantes centros universitários internacionais, como a Universidade de Harvard, e aplicado o seu método de alfabetização em nações da Ásia, da África e da América Latina. A sua obra acabou, portanto, por assumir dimensões universais. Assim, por exemplo, Pedagogia do oprimido foi traduzido para 17 línguas, tendo vendido cerca de meio milhão de exemplares. Ao lado disso, tornou-se doutor honoris causa por 28 universidades, e 26 centros de pesquisasem educação recebem o seu nome em países como Brasil, Itália,Chile, Bélgica e Estados Unidos. As repercussões do pensamento do educador pernambucano podem ser avaliadas na obra organizada por Moacir Gadotti, intitulada Paulo Freire: Uma bibliografia, na qual cerca de 150 autores de todas as partes do mundo comentam a sua obra.

Na verdade, as idéias e a prática de Paulo Freire têm sido objeto de intensa polêmica dentro e fora do espaço universitário. Muitas teses, muitos livros e muitos artigos têm se debruçado sobre o legado do referido autor. As conclusões são controversas: para uns, sua pedagogia libertadora coloca-o entre as grandes expressões do pensamento educacional do século XX. Para outros, Freire seria fruto do populismo e do nacional desenvolvimentismo que pontificaram na sociedade brasileira nos anos 50 e 60. Seria um utópico, um humanista cristão, um iluminista etc.

Ora, se a obra de Paulo Freire tem sido tão estudada e debatida, qual a contribuição específica do livro de Carlos Lyra As quarenta horas de Angicos? O que ele acrescenta ao que é conhecido acerca da aludida experiência de educação? São perguntas que se colocam.

Nessa perspectiva, a importância do trabalho de Lyra não diz respeito às análises que desenvolve, mas aos fatos que ele apresenta. Trata- se de um texto escrito em março de 1963 em que o autor, na condição de coordenador da experiência de Angicos, faz um relato, escreve uma espécie de diário do que ocorreu no cotidiano dos Círculos de Cultura. Nunca foi publicado antes, embora tenha sido exposto pelas forçasgolpistas de 1964 como “material subversivo”, ao lado de O capital, de Karl Marx, e Recordação da casa dos mortos, de Dostoiévsky.

Como relato e exposição factual, o livro constitui uma preciosa fonte de pesquisa do que aconteceu no dia-a-dia de Angicos. O trabalho de preparação, o universo vocabular, as palavras geradoras, o desenrolar das “aulas”, os impasses vividos pelo grupo de estudantes, a alfabetização, a politização. Nesse particular, merece atenção o fato de existirem testes, não somente de alfabetização, mas também de politização, cujas médias obtidas pelos “alunos”, nestes últimos, alcançaram índices mais elevados do que as referentes à alfabetização. O aludido livro reproduz, outrossim, modelos dos testes utilizados no transcorrer da experiência, ao mesmo tempo em que identifica os sujeitos que participaram dos Círculos de Cultura e quais os motivos que os levavam a querer aprender a ler e a escrever.

Lá estavam presentes os subalternos — domésticas, operários, trabalhadores rurais, pedreiros, serventes, artesãos, lavadeiras, motoristas, carpinteiros etc. —, que responderam majoritariamente que desejavam aprender a ler e a escrever “para melhorar de vida”. Enfim, o livro apresenta “os fatos”; a “análise e as conclusões” são “tema da próxima publicação”, escreve Carlos Lyra.

Nesse sentido, o material induz a muitas interrogações (O que seria um indivíduo politizado, por exemplo, para os coordenadores dos Círculos de Cultura?) e permite, igualmente, fazer algumas inferências, quais sejam: 1) O predomínio de uma concepção de democracia e de participação política bastante restrita, reduzida praticamente ao ato de votar; 2) Os textos utilizados e as discussões travadas no interior dos Círculos de Cultura não propunham o conflito, mas o entendimento, inclusive entre patrões e empregados. O conflito só surgiria caso falhasse o entendimento; 3) A consciência política seria legada ao povo, a “uma população acomodada, conformada, indiferente, fatalista”, por uma elite esclarecida.

Pela sua dimensão documental, portanto, o livro de Carlos Lyra constitui uma contribuição extremamente significativa ao conhecimento dos acontecimentos de Angicos e do lançamento de uma das pedras fundamentais da obra do mestre recentemente desaparecido.


Educação & Sociedade, ano XVIII, nº 59, agosto/97
Nota
1. São Paulo, Cortez/Instituto Paulo Freire, 1996.

O texto também estar disponivel em PDF, para fazer Download acessar link: http://www.4shared.com/office/QUuFJU3t/Resenha_do_Livro_40_HORAS_EM_A.html

sábado, 5 de maio de 2012

A Mulher do Carnaval em "Conversa de Mulher"

Programa realizando no dia 15 de fevereiro de 2012, tendo como tema "Mulheres do Carnaval", com a participação da Professora Suerda Oliveira.