quinta-feira, 7 de junho de 2012

VIII Colóquio Nacional Representações de Gênero e de Sexualidades


O VIII Colóquio Nacional Representações de Gênero e de Sexualidades tem como objetivo central propiciar a troca de conhecimentos em áreas multidisciplinares em especial Literatura, Teoria da Literatura, Crítica Literária, Linguística, Cinema, História, Sociologia, Comunicação, Educação com a finalidade de levar não só aos professores universitários como também aos mestrandos, doutorandos e alunos dos cursos de graduação propostas teóricas vigentes e atualizadas no cruzamento de saberes nas áreas em questão. São também objetivos do evento: divulgar pesquisas realizadas no País nas referidas áreas do conhecimento; estimular e desenvolver a troca de conhecimentos entre professores e alunos a partir das conferências oferecidas; refletir sobre os lugares dos estudos de gênero e de sexualidades nas agendas contemporâneas.


O evento - destinada apenas à participação como ouvinte do evento. O interessado deverá preencher o formulário de inscrição disponível no site http://www.genero2012.com.br. A efetivação da inscrição será feita mediante a confirmação do pagamento do valor correspondente a categoria. Assim poderá ser realizada até o dia até dia 16 de julho de 2012. O certificado de ouvinte do inscrito no evento só será emitido com o mínimo de participação exigida: 80% (oitenta por cento) das atividades de palestras e mesas-redondas.

Comunicação - destinada à participação como comunicador de trabalho inscrito. Esta modalidade subdivide-se em duas:
a) Profissional (professores, pesquisadores);
b) alunos de pós-graduação . Trabalhos com mais de um autor serão apresentados apenas por um dos autores.

Categorias - Abaixo estão discriminadas os tipos de inscrição permitidas neste evento: 
1) Ouvinte - valor R$ 40,00;
2) Alunos de Graduação(apresentação e publicação de trabalhos) - valor R$ 60,00;
3) Alunos de Pós-Graduação, Professores da Rede Pública - valor R$ 80,00;
4) Demais Profissionais (mestres, doutores, profissionais liberais) - valor R$ 120,00;

Mais informações consultar Site do evento http://www.genero2012.com.br
O site contém informações de forma de pagamentos, envio de trabalho, formulário de inscrição, programação e outros.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

LIVRO: POLÍTICA E EDUCAÇÃO - PAULO FREIRE


Alguns trechos do livro: 
 “Aprender e ensinar fazem parte da existência humana, histórica e social, como dela fazem parte a criação, a invenção, a linguagem, o amor, o ódio, o espanto, o medo, o desejo, a atração pelo risco, a fé, a dúvida, a curiosidade, a arte, a magia, a ciência, a tecnologia. E ensinar e aprender cortando todas estas atividades humanas.” Pag. 12

“A educação é permanente não porque certa linha ideológica ou certa posição política ou certo interesse econômico o exijam. A educação é permanente na razão, de um lado, da finitude do ser humano, de outro, da consciência que ele tem de sua finitude. Mais ainda, pelo fato de, ao longo da história, ter incorporado à sua natureza “não apenas  saber que vivia  mas  saber que sabia  e, assim, saber que podia saber mais. A educação e a formação permanente se fundam aí.” Pag. 12

“O respeito a estes direitos é dever daqueles que têm o comando em diferentes níveis de poder, sobre a atividade de que fazemos parte. Sua responsabilidade exige deles ou delas que cumpramos os nossos deveres. O desrespeito aos direitos e o não cumprimento de deveres entre nós é de tal modo generalizado e afrontoso que o clima que nos caracteriza é o da irresponsabilidade. Irresponsabilidade de Presidentes, de Ministros, de Eclesiásticos, de Diretores, de Magistrados, de Legisladores, de Comandantes, de Fiscais, de Operários. A impunidade é a regra. Aplaude-se o espertalhão que rouba um milhão. Pune-se, porém, o miserável que rouba um pão.” Pag. 44

"Imoral é o mando das classes dominantes de uma sociedade sobre a totalidade de outra, que deles se torna puro objeto, com sua maior ou menor dose de conivência." Pag. 45   

Para  salvar o livro em PDF acesse o Link: 

A Mulher nas Secretarias em "Conversa de Mulher"

Programa realizado no dia 21 de Janeiro de 2012, tendo como tema "A mulher nas Secretarias" com a participação de Lorinalda Gurgel - Secretária de Governo, Martilene Costa – Secretária de Educação e Nailka Saldanha - Secretária de Assistência Social, todas atuantes no município de Janduís/RN. Para esse programa, o Conversa de Mulher traz a seguinte reflexão: "O que você estar regando?" 

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terça-feira, 5 de junho de 2012

LIVRO: Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar - Paulo Freire


Introdução: Não sei se quem leia este livro perceberá facilmente o prazer com que o escrevi. Foram quase dois meses em que à sua redação entreguei parte de meus dias, o maior tempo em meu escritório, em nossa casa, mas também em aviões e quartos de hotéis. Mas não foi apenas com prazer que escrevi este trabalho. Escrevi-o tocado por um forte sentido de compromisso ético-político e  com decidida preocupação em torno da comunicação que busco estabelecer a todo instante com seus prováveis leitores e leitoras.

Precisamente porque estou convencido de que a produção da compreensão do texto não é tarefa exclusiva do seu autor,  mas também do leitor, me experimentei durante todo o tempo em que o escrevi no exercício de desafiar as leitoras e leitores a entregar-se à ocupação de produzir também sua compreensão e minhas palavras. Daí as observações e as sugestões que fiz, com medo quase de cansar os leitores para, usando instrumentos como dicionários, enciclopédias não abandonar a leitura de nenhum texto por não conhecer a significação técnica desta ou daquela palavra.

Espero confiante que nenhuma leitora ou leitor deixará de ler este livro em sua totalidade simplesmente porque lhe tenha faltado a decisão de trabalhar um pouco mais. Que abandone a leitura porque o livro não lhe agrade, porque o livro não coincida com suas aspirações político-pedagógicas, isso  é um direito que lhe assiste. De qualquer maneira, porém, é sempre bom ler textos que defendem posições políticas diretamente opostas às nossas. Em primeiro lugar, ao fazê-lo, vamos aprendendo a ser menos sectários, mais radicais, mais abertos; em segundo lugar, terminamos por descobrir que aprendemos também não apenas com o diferente de nós, mas até com o nosso antagônico.

Recentemente tive experiência profundamente significativa neste sentido. Coincidentemente conheci um empresário que, segundo me disse rindo no fim da conversa, me tinha como uma espécie de malfeitor do Brasil. Reminiscências do que de mim diziam alguns jornais nos 60. 

“Foi um prazer conhecê-lo de perto. Não diria que me converti a suas idéias mas mudei radicalmente a minha apreciação em torno do senhor”, disse convincente.

Voltei para casa contente. De vez em quando o Brasil melhora, apesar das “recaídas” que o abalam... 

Como já salientei antes, uma preocupação que não podia deixar de me haver acompanhado durante todo o tempo em que me dediquei á escrita e à leitura simultânea desse texto foi a que me engaja, desde faz  muito, na luta em favor de uma escola democrática. De uma escola que, continuando a ser um tempo-espaço de produção de conhecimento em que se ensina e em que se aprende, compreende, contudo, ensinar e aprender de forma diferente. Em que ensinar já não pode ser este esforço de transmissão do chamado saber acumulado, que faz uma geração á outra, e aprender não é a pura recepção do objeto ou do conteúdo transferido. Pelo contrário, girando em torno da compreensão do mundo, dos objetos, da criação, ela boniteza, da exatidão científica, do senso comum, ensinar e aprender giram  também em torno da produção daquela compreensão, tão social quanto a produção da linguagem, que é também conhecimento. 

Exatamente como no caso da produção da compreensão cio texto que e lê, que é também tarefa do leitor, é tarefa igualmente do educando participar da produção da compreensão do conhecimento que supostamente apenas recebe do professor. Daí, a necessidade da racionalidade do diálogo, como selo da relação gnosiológica e não como pura cortesia.

Não poderia encerrar esta introdução sem alguns agradecimentos. 

Em primeiro lugar, a Jorge Cláudio Ribeiro, amigo e editor, que me pediu (e facilmente me convenceu) que eu escrevesse este livro já trazendo à nossa casa o próprio título do trabalho. A Jorge Cláudio penso que devo não só agradecer a sugestão e o pedido que me fez mas elogiar, ele  um lado, o seu empenho para que o texto tomasse corpo, de outro, a fraterna posição que sempre assumiu sem jamais me telefonar a pretexto de nada para, no fundo, saber se eu me achava ou não trabalhando no livro. Devo agradecer também às professoras Suraia Jamal Batista e Zaquial Jamal e às alunas do Curso de Magistério do Colégio Sagrado Coração de Jesus e  às CEFAM da EEPG Edmundo de Carvalho que partilharam comigo suas lutas e descobertas, na etapa preliminar de produção deste livro.
 
Meu muito obrigado a Nita, pela paciência com que me aturou durante os dias mais intensos de redação do texto, mas sobretudo, pelas sugestões temáticas que me fez, apontando um aspecto aqui e outro ali, à  luz de sua própria experiência como exprofessora de História da Educação de alguns cursos do Magistério em São Paulo.

Finalmente, devo ainda agradecer a Madalena Freire Weffort, a Fátima Freire Dowbor e a Ana Maria Saul pela abertura e pelo interesse com que me ouviram e comigo falaram sobre algumas de minhas inquietações enquanto eu simultaneamente escrevia e lia este livro.

São Paulo
Maio/1993

Para  salvar o livro em PDF acesse os Link: 
 http://forumeja.org.br/files/Professorasimtianao.pdf


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Resenha - LIVRO: Introdução Crítica à Sociologia Rural - Capítulos 1, 2 e 3 *


Texto resenhado por Silvânia Araújo,  acadêmica  do curso de Doutorado do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal da Paraíba.

NISBET, Robert A. As ideias-unidades da Sociologia.  In: Introdução Crítica à Sociologia Rural. 2 ed. São Paulo: Hucitec, 1986, pp. 41-61.*

Entre Ideias e antíteses, Nisbet (1986) afirma que a história do pensamento apresenta duas abordagens principais: a primeira, parte dos próprios pensadores, cujos escritos fornecem a matéria bibliográfica do pensamento sociológico, ou seja, refere-se meramente à biografia do pensamento; a segunda, por sua vez, dirige-se não ao homem, mas ao sistema, à escola ou ao ismo (utilitarismo, idealismo, socialismo). Tais enfoques, destaca ele, leva-nos a uma terceira abordagem, que não começa com o homem, nem com o sistema, mas com as ideias, que são os elementos dos sistemas. Sendo, portanto, elementos constitutivos da história do pensamento, as ideias-unidades fornecem as diferenças manifestas em seus autores; ideias que persistem através da era clássica da sociologia, estendendo-se, até o presente (p.43). 

Nisbet (1986)  localiza  cinco “ideias-unidades” norteadas por critérios seletivos para a constituição de uma disciplina intelectual, quais sejam: ter generalidade, ter continuidade, ser distintiva, enfim, ser uma ideia no sentido pleno da palavra (uma perspectiva, um quadro de referências, uma categoria). Essas ideias-unidades são reputadas como responsáveis diretas pela privilegiada capacidade de análise e diagnóstico que a disciplina historicamente demonstra com relação às questões próprias à sociedade moderna.  Segundo o autor, são elas: “comunidade, autoridade, status, sagrado e  alienação”, cujas  noções  foram tomadas de empréstimo do pensamento conservador europeu, que emergiu como reação à Revolução Industrial e às revoluções democráticas (a exemplo da Revolução Francesa), correspondendo à imensa dívida que o pensamento sociológico guarda com relação à tradição conservadora. Estas cinco ideias não apenas descrevem o contexto societário do que comumente foi designado de “sociedades pré-modernas”, como também representam as preocupações, o choque e a perplexidade da análise de extração conservadora face à modernidade.

Neste contexto, Nisbet (1986) ainda ressalta que a constituição e a emergência da sociologia são operadas a partir da transfiguração das noções, do diagnóstico e das preocupações tipicamente conservadoras na linguagem do método científico, com vistas a objetivos e valores tanto políticos quanto intelectuais, distintos daqueles que o conservadorismo europeu encarnava. Logo, esta ativa transação com o pensamento conservador, ou melhor, esta recriação dos temas da tradição conservadora a partir do exame crítico da razão, dos valores antidogmáticos e da frequente simpatia aos  ideais republicano-democráticos,  constituiria o “paradoxo criativo” da sociologia: a fértil interpenetração de elementos tradicionais e modernos que resulta na percepção e na elaboração caracteristicamente sociológicas dos problemas da modernidade.

Cada uma dessas ideias está associada a um conceito antinômico, do qual ela deriva muito de seu significado permanente na tradição sociológica. Tal recriação dos temas conservadores implica a formulação das seguintes ideias antípodas:  à ideia de “comunidade”  é contraposta à ideia de “sociedade”, ou seja, de uma extensa aglomeração impessoal de indivíduos habitando um mesmo território jurídico-político; à noção de “autoridade”,  como força e ordenação superior emanada e chancelada pela tradição e pelos costumes do sagrado, é contraposta à ideia de “poder”  como prerrogativa limitada por estatutos fixos, impessoais e secularizados; à ideia de “status”, a noção de “classe”, uma ideia mais especializada e coletiva; à de “sagrado”, contrapõe-se o  “secular”, ou melhor, o utilitário, o profano; e, finalmente, ao diagnóstico conservador de desestruturação dos grupos humanos e consequente crise, estranhamento e insegurança dos indivíduos,  temos a “alienação”, que  se opõe à possível perspectiva de “progresso”. 

No processo histórico do surgimento dessas ideias – as quais têm, “como todas as grandes ideias sobre o homem e a sociedade, seu período de fluxo e refluxo, de escassez e de abundancia” (p.46)  –, Nisbet (1986) destaca  A  revolta contra o individualismo, cuja discussão nos lembra que essas ideias de que ele trata não tiveram papel relevante na Idade da Razão, que iluminou os séculos XVII e XVIII. Nessa época, as ideias que sintetizaram a aspiração moral e política foram: indivíduo, progresso, contrato, natureza, razão. O autor afirma que “dominando todo  esse período estava a crença universal do indivíduo natural  –  na sua razão, em seu caráter inato e sua estabilidade auto-suficiente” (p.47). Na verdade, as ideias e os valores do racionalismo individualista dos séculos XVII e XVIII não desapareceram com a chegada do século XIX, por isso, segundo ele, o individualismo está longe de descrever a trajetória completa do pensamento desse século. De fato, o que é mais distinto e fértil, do ponto de vista intelectual, no pensamento do século XIX, não é o individualismo, mas a reação ao individualismo, como têm mostrado, por exemplo, essas ideias-unidades que estão sendo discutidas: comunidade, autoridade, status, sagrado e alienação. “O racionalismo individualista afirmava-se, então, contra o corporativismo e a autoridade medievais. No começo do século XIX, deu-se o contrário: a reação ao tradicionalismo contra a razão analítica, do comunalismo contra o individualismo e do não-racional contra o puramente racional” (p.47).

Nesta perspectiva, Nisbet (1986) enfatiza as três grandes ideologias do século XIX e começo do século XX:  Liberalismo, radicalismo e conservadorismo. O liberalismo se distingue pela devoção ao indivíduo, em especial a seus direitos políticos, civis e sociais. Derivado e aliado do liberalismo, encontra-se o radicalismo com uma mentalidade muito diferente: “junto à ideia de poder está a fé quase sem limites na razão para a configuração de uma nova ordem social” (p.50). O conservadorismo moderno, por sua vez, “é, pelo menos em sua forma filosófica, produto da Revolução Industrial e da Revolução Francesa: produto não intencional, involuntário e odiado pelos protagonistas de ambas, mas, não obstante, seu produto” (p.51), por isso, pode ser considerado como o primeiro ataque amplo ao modernismo e a seus elementos políticos, econômicos e culturais.

Ainda discutindo os nomes representativos da sociologia moderna, Nisbet (1986) trata da temática Ideologia e sociologia  destacando as ideias pessoais dos maiores sociólogos da história, consideradas as sementeiras das questões doutrinárias e conceituais daquele século. Assim, discorre brevemente sobre Le Play, Marx, Spencer, John Stuart Mill, Comte, Tocqueville, Tönies, Simmel, Weber, Durkheim, situando suas ideias sociológicas. Ele  registra  também que o paradoxo da  sociologia, um  “paradoxo criativo”, repousa no fato de que, embora ela secoloque, por seus objetivos e pelos valores políticos e científicos que suas principais figuras defendiam, na corrente central do modernismo, seus conceitos essenciais e suas perspectivas implícitas a situam muito mais perto do conservadorismo filosófico.   

Para finalizar seu texto, Nisbet (1986, p.58) reflete sobre  As fontes da imaginação sociológica, enfatizando dois pontos principais: 1) a base moral da sociologia moderna; 2) a estrutura intuitiva e artística do pensamento, na qual se alcançaram as ideais centrais da sociologia. As principais ideias nas ciências sociais têm raízes na aspiração moral, por mais abstratas que sejam ou por mais neutras que possam parecer aos cientistas e teóricos. De acordo com o autor, todos os estudiosos que marcaram a história da sociologia usaram de profunda intuição e intensa força imaginativa, “cada um reagia ao mundo à sua volta como reage o  artista e, também como um artista, objetivando estados mentais íntimos e apenas parcialmente conscientes” (p.60).


NISBET, Robert A. Conservadorismo e Sociologia.  In:  Introdução Crítica à Sociologia Rural. 2 ed. São Paulo: Hucitec, 1986, pp. 62-76.

No  texto “Conservadorismo e Sociologia”, Nisbet (1986) destaca,  inicialmente, que para o cientista social contemporâneo ser tachado de conservador, essa característica ressalta mais uma crítica do que um elogio,  já  que  “ser  conservador”, segundo ele, é uma pessoa que mantem instituições e pontos de vista existentes, alguém que se dispõe a ser contrário à mudança e à inovação. Todavia, para além de qualquer visão global acerca do conservadorismo, este não pode ser restringido aos termos psicológicos de atitudes e respostas avaliativas. Isto porque, nos termos contextuais da história, há também ideias conservadoras – status, coesão, ajustamento, função, norma, ritual, símbolo  –  que, na verdade, são partes integrantes da história intelectual do conservadorismo europeu. Além disso, tais ideias “são também conceitos integrais no estudo contemporâneo comportamento humano” (p.63).

Até a geração passada, o principal interesse dos sociólogos americanos repousava no estudo da “mudança”, cuja fé encontrava-se aliada à “convicção de que a real unidade da investigação sociológica era o indivíduo, tido como alguém autossuficiente por natureza e como o mais solido elemento da realidade social” (idem). Hoje, continua Nisbet (1986), a principal orientação não é a mudança, mas a “ordem”. Assim, no lugar das antigas incertezas de antes, é difundida agora uma preocupação com o fenômeno do deslocamento institucional e da insegurança psicológica. E, nesta perspectiva, é concebido de modo central na sociologia contemporânea o conceito de “grupo social”, o qual passa a compor “todo um conjunto de problemas relacionados com integração e desintegração, segurança e insegurança, ajustamento e desajustamento” (idem). Na verdade, “os presentes interesses no grupo social e suas propriedades psicológicas podem ser vistos como manifestações dos imperativos morais da comunidade que dominam particularmente, na atualidade, diversas áreas da crença e do desejo” (idem), o que nos leva a compreender que o sistema de ideias proposto pelo conservadorismo veio a exercer uma profunda influencia sobre a mente contemporânea.

Nisbet (1986) ressalta que foram três as perspectivas que se originaram dos escritos dos conservadores do começo do século XIX na Europa: 1) a perspectiva das massas; 2) a alienação do indivíduo; e 3) a perspectiva do poder. Segundo ele, estas são as principais heranças intelectuais do conservadorismo. Ao enfatizar tais heranças, o autor argumenta que “os atuais problemas e hipóteses sobre ordem social, integração e desintegração grupal e sobre a natureza da personalidade estão enraizados muito mais profundamente na tradição conservadora do pensamento moderno europeu do que no sistema liberal-radical do século dezenove, que é mais comumente  tomado como fundamento da sociologia moderna” (pp.64-65). “O conservadorismo moderno se volta para a sociedade medieval em busca de inspiração e modelos, contra os quais lança o mundo moderno”, além disso, “a crítica conservadora ao capitalismo e à centralização política era do mesmo nível das denúncias contra o individualismo, o secularismo e o igualitarismo” (p.65). Desta visão crítica da história, afirma Nisbet (1986), “os conservadores foram levados a formular certas proposições gerais a respeito da natureza da sociedade e do homem, que divergem radicalmente daquelas visões que os racionalistas e individualistas haviam enfatizado” (idem). Foram essas as proposições:
1)  a natureza da sociedade, considerando que ela não é um agregado mecânico de partículas individuais sujeitas a quaisquer arranjos que passem pelas cabeças dos industriais ou funcionários governamentais;
2)  a primazia da sociedade sobre o indivíduo.  “O  homem”,  escreve  Bonald, “existe apenas dentro da sociedade e para ela”;
3)  a sociedade não pode ser  desmembrada, mesmo que seja para fins conceituais, em indivíduos. A unidade irredutível da sociedade é e deve ser em si mesma uma manifestação da sociedade, uma relação, alguma coisa que seja social; 
4)  o principio da interdependência do fenômeno social. A sociedade é orgânica por natureza e dentro dela sempre há uma delicada inter-relação entre crença, hábito, associação e instituição;
5)  o principio das necessidades do homem. Não direitos naturais fictícios, mas necessidades inalteráveis ao homem, suas “vontades”,  como  Burke  as chamou, são primordiais;
6)   o principio da função. Toda pessoa, todo costume, toda instituição, serve a alguma necessidade básica da vida humana, ou contribui com alguns serviços indispensáveis para a existência de outras instituições e costumes.
7)  a ênfase aos pequenos grupos sociais da sociedade. O grupo social, não o indivíduo, é a unidade irredutível da sociedade; é o microcosmo, societas in parvo;
8)   a realidade da organização social, esta foi uma proposição que os conservadores foram levados a reconhecer;
9)  o valor indispensável dos elementos sagrados, irracionais e não utilitários da existência humana. Tentar fundar a sociedade sobre o meramente secular e sobre motivações meramente individualistas é ruinoso. O homem vive e deve sempre viver através da prática do ritual, da cerimônia e da adoração;
10)   o principio da hierarquia e do status. Sem hierarquia na sociedade, não pode haver estabilidade;
11) o principio da legitimidade da autoridade. A legitimidade da autoridade advém, não de axiomas de direito e razão, mas de crenças e hábitos que são inerentes às necessidades, as quais são supridas pela autoridade.

Dificilmente, completa Nisbet (1986), pode ser dito que o conservadorismo exerceu alguma influência mais ampla sobre o pensamento do século XIX, já que este foi considerado o século da grande esperança. Na realidade, para a maioria desse século, “o conservadorismo, com sua concepção essencialmente trágica da história, seu medo do indivíduo livre e das massas e sua ênfase na comunidade, na hierarquia e no sagrado, não parecia mais do que uma manifestação final daquele passado do qual a Europa estava em toda parte se libertando” (pp.71-72). Todavia, continua o autor, somente hoje estamos nos dando conta da real extensão das ideias conservadoras sobre os pensadores e políticos do século XIX.

Pelo exposto, Nisbet (1986) ressalta que “a sociologia pode ser considerada como a primeira ciência social a lidar diretamente com os problemas da desarticulação envolvidos no aparecimento de uma sociedade de massas”  (p.72).  Além  disso,  essa ciência, diferentemente das demais, desde o começo, usou largamente de visões da sociedade fornecidas por homens como Burke, Bonald e Hegel, reconhecendo o papel preponderante de Comte para o estudo das relações humanas e de Frédéric Le Play que contribui, anos mais tarde, dando-lhe uma metodologia e um conjunto de técnicas de investigação empírica. O autor coloca ainda que, entretanto, é nos trabalhos de Durkheim, no final do século XIX, que se encontra o mais importante elo  de ligação entre o conservadorismo e o estudo contemporâneo do comportamento humano. Na realidade, Durkheim divide com Freud uma grande parte da responsabilidade de ter transformado o pensamento social moderno, cuja visão da história é essencialmente conservadora, enfatizando “os aspectos desorganizacionais e alienadores do desenvolvimento europeu moderno e a criação das massas, prostradas inertes ante um estado cada vez mais onipotente” (p.76).


MANNHEIM, Karl. O pensamento conservador. In: Introdução Crítica à Sociologia Rural. 2 ed. São Paulo: Hucitec, 1986, pp. 77-131.

Introdução

1. Estilos de pensamento

Mannheim (1986, p.77) afirma que existem duas maneiras principais de se escrever a história do pensamento:  1)  o  estilo  “narrativo”,  que  simplesmente  expõe  a passagem das ideias de pensador a outro e faz uma narrativa épica da história de seu desenvolvimento; e 2) o estilo adotado pelo autor neste trabalho que está baseado na sociologia do conhecimento recentemente desenvolvida. Para ele, no âmago desse método, está o conceito de “estilo de pensamento”, cujo conceito “parte do principio de que os indivíduos não criam os padrões de pensamento segundo os quais concebem o mundo, mas os absorvem de seus grupos” (p.78). O autor nos lembra que, na história do pensamento, numa sociedade diferenciada e, especialmente, dinâmica, os padrões de pensamento humano estão continuamente mudando, por isso, ele invoca o conceito de “estilo” proporcionado pela história da arte  que nos fornece um termo capaz de fazer justiça à natureza especial da história do pensamento. 

De fato, a arte se desenvolve em “estilos” e é no  interior de cada estilo que há uma mudança gradual de uma fase para outra, o que torna possível situar até mesmo uma obra de arte desconhecida. É nesse movimento que Mannheim (1986) argumenta que o pensamento humano se desenvolve em “estilos” e que há diferentes escolas de pensamento distinguíveis pelos diferentes modos como utilizam diferentes padrões e categorias do pensamento. De modo geral, o conceito de “estilo de pensamento” parece já ter sido aceito e, assim, somos, na maioria dos casos, impedidos de reconhecer a sua existência por dois motivos: 1) o pensamento é único; e 2) o indivíduo pensa independente e isoladamente de seus semelhantes. Neste sentido, “as qualidades ímpares do pensamento de cada indivíduo são supervalorizadas e o significado de seu milieu social para a natureza de seu pensamento é ignorado” (p.79). 

Segundo o autor, a unidade categorizada mais importante a prevalecer deve ser o estilo de uma época e é contra esse pano de fundo que a contribuição especial de cada indivíduo aparece e adquire significado, uma vez que, contrariamente, esse nível intermediário entre o mais abstrato e o mais concreto é exatamente o que está faltando na história do pensamento. Mannheim (1986, p.80) afirma, portanto, que “é devido a essa falta de interesse no nível intermediário que nossas ferramentas para distinguir estilos de pensamento não estão sendo desenvolvidas”. Utilizando do método análise da significação, ele sistematiza os objetivos de seu texto: ver os pensadores de um determinado período como representantes de diferentes estilos de pensamento; descrever suas maneiras diversas de enxergar as coisas como  se eles refletissem as perspectivas em mudança de seus grupos; mostrar tanto a unidade interna de um estilo de pensamento como as leves variações e modificações que o aparato conceitual do
grupo todo deve sofrer quando esse mesmo grupo muda sua posição na sociedade.

2.  A relação entre estilos de pensamento e suas circunstâncias sociais
A existência e o destino grupos estão refletidos aparentemente, ressalta Mannheim (1986), nas menores mudanças de desenvolvimento de um estilo de pensamento.

3. “Intenções básicas”
O conceito de intenção básica não se refere à arte, mas expressa a ideia de que diferentes modos de abordagem do mundo estão na raiz de diferentes modos de pensamento. De acordo com Mannheim (1986), o sociólogo não pode admitir que as intenções básicas presentes nos diferentes estilos tenham vindo do nada, pois, elas mesmas fazem parte do processo de pensamento e que sua história e seu destino estão de várias formas ligados ao destino dos grupos que devem ser considerados como seus portadores sociais.

4. Um exemplo concreto: o conservadorismo alemão na primeira metade do século XIX
Diferentes estilos de pensamento se desenvolveram de acordo com linhas partidárias, o que leva o autor a destacar os estilos de pensamento “liberal” e “conservador”, além do estilo socialista. Essa tendência polarizante foi especialmente marcada na Alemanha, cujas tendências opostas, extremosas, tornam-se singulares no exemplo destacado por Mannheim (1986): o romantismo. De acordo com ele, o romantismo é um fenômeno europeu que surgiu aproximadamente ao mesmo tempo em todos os países, sob dois propósitos: em parte como reação às circunstâncias comuns e aos problemas comuns característicos de um mundo capitalista racionalizado e, em parte, como o resultado de influências ideológicas secundárias.

O autor ainda discute que a  visão  romântica  do mundo pretende congelar o tempo, conservar as tradições, as relações sociais tradicionais, condenando o progresso, o  novo, etc. A recusa do  novo  é  uma  das características  secundárias desta  visão. O romantismo é predominantemente conservador, mas possui um potencial crítico, que se dá quando entra em choque com as ideologias do progresso e as apologias da sociedade capitalista. A visão iluminista, por sua vez, busca superar as tradições, o passado e fazer a apologia do novo, do progresso, da tecnologia, tornando-se símbolo da inovação. A condenação do “ultrapassado”, do antigo, é uma característica secundária desta visão. O iluminismo é progressista, mas, em sua visão de progresso, não possui um grande potencial crítico em relação ao desenvolvimento social contemporâneo, ficando mais ao nível da apologia.

Parte I

O racionalismo moderno e a origem da oposição conservadora
As diferenças sociais se refletem não somente em diferentes correntes de pensamento, mas, também, na diferenciação do clima mental de uma época. O traço mais característico do pensamento moderno é sua tentativa de atingir uma total racionalização do mundo. Além disso, o racionalismo moderno, enquanto método de pensamento,  tem sua aplicação mais clara e radical nas ciências exatas modernas. Ele surgiu em oposição a duas principais correntes do pensamento: a concepção do escolasticismo aristotélico medieval e a filosofia da natureza da Renascença. 

Há que se ressaltar que a maioria das tentativas de se escrever o desenvolvimento geral do pensamento moderno tende a dar atenção exclusiva ao crescimento do racionalismo. Entretanto, o que Mannheim (1986) problematiza em seu texto é o que aconteceu com todas aquelas relações e atitudes vitais suprimidos pelo aparecimento de uma racionalização consistente, já que, como de fato acontece na história, elas submergem e tornam-se latentes.  Segundo o autor, tais relações e atitudes do pensamento vital “foram assumidos e desenvolvidos, primeiramente, pelas camadas sociais e intelectuais que permaneceram fora do processo capitalista de racionalização ou pelo menos tiveram um papel passivo em seu desenvolvimento” (p.94). Em outras palavras, foi na periferia da nova sociedade, entre a nobreza, o campesinato e a pequena burguesia, que as antigas tradições continuaram se mantendo vivas. No exemplo usado pelo autor, o que se tem é que o significado sociológico do romantismo está na sua função de oponente histórico das tendências intelectuais do Iluminismo, ou melhor, contra os representantes filosóficos do capitalismo burguês. 

De acordo com o objetivo do romantismo, o que os românticos fizeram não foi reconstruir ou reviver a Idade Média, a religião, ou o irracional como base e fundamento da vida; foi algo inteiramente diferente: uma compreensão reflexiva e cognitiva de tais forças. “Assim sendo, todos esses modos de vida e atitudes para com os homens, as coisas e o mundo, que durante toda uma época haviam sido na sua maioria invisíveis, foram mais  uma vez trazidos à superfície” (p.96). Mannheim (1986) analisa como a “oposição de direita”, politica e social, não apenas se colocou contra a dominação política e econômica do capitalismo emergente, mas como também se opôs a ele intelectualmente e reuniu todos os fatos espirituais e intelectuais que estavam em perigo de desaparecimento, como resultado da vitória do racionalismo burguês, a ponto de criar uma “contra-lógica”: a “irracionalidade” do pensamento proletário. Na verdade, afirma o autor: “sua própria dinâmica, a logica de sua própria posição, facilmente fazem com que esse tipo de racionalismo se transforme num tipo peculiar de irracionalismo” (p.98).

No entanto, continua o autor, a consciência revolucionária proletária está diretamente ligada à tradição conservadora, através da “dialética”. Havia uma necessidade interna na adoção, por Marx, da ideia de dialética do conservador Hegel, cujo conceito se pautava na tríade da sequência lógica de “tese, antítese e síntese”, que parecia, na superfície, extremamente racional. Não é surpreendente, portanto, que a última geração de socialistas democráticos e de “mentalidade cientifica” fizesse o possível para eliminar completamente o elemento dialético do marxismo.

 Isto posto, Mannheim (1986, p.100) ainda comenta que “levando-se em consideração tudo isso, somos forçados a admitir que através de Hegel se efetiva estreita aliança entre o racionalismo e o pensamento conservador – não obstante o fato desse último ser muito diferente daquela forma de racionalismo naturalista que considera tudo calculável”. Assim, ele encerra esta primeira parte de seu texto registrando que “apesar de todas essas afinidades e similaridades entre o pensamento proletário e o conservador, a base da mentalidade proletária é estritamente racional e fundamentalmente relacionada com a tendência positivista da filosofia burguesa” (pp.100-101).

Parte II

O significado do conservadorismo

1. Tradicionalismo e conservadorismo
Mannheim (1986), neste tópico, inicia seu estudo explicando o que exatamente quer dizer com “conservadorismo”. Por isso, trata em afirmar que existem dois tipos de conservadorismo: 1) o conservadorismo natural, cujo tipo é mais ou menos universal e que ele vai chamar, como Max Weber definia, de  tradicionalismo; e 2) o conservadorismo moderno, cujo tipo é produto de circunstâncias históricas e sociais particulares e que tem suas tradições, forma e estrutura próprias e peculiares, o qual ele vai chamar simplesmente de conservadorismo.  

“Tradicionalismo  significa uma  tendência  a se apegar a padrões vegetativos, a velhas formas de vida que podemos considerar como razoavelmente onipresentes e universais” (p.102); é um  tradicionalismo  instintivo, que pode ser considerado como a reação original a tendências deliberadas de reforma. A palavra “tradicionalista”, destaca o autor, designa a característica psicológica formal de toda mente individual. A ação “conservadora”, no entanto, depende sempre de um conjunto concreto de circunstâncias. Ela envolve mais do que respostas automáticas de um certo tipo, significa que o indivíduo é guiado consciente ou inconscientemente por uma forma de pensamento e ação que tem sua própria história atrás de si, anterior ao contato com o indivíduo. “O conservadorismo político é, portanto, uma estrutura mental objetiva, em oposição à ‘subjetividade’ do indivíduo isolado. Não é objetiva no sentido de ser eterna e universalmente válida” (p.103). 

Resumindo, coloca Mannheim (idem), “o conservadorismo não é uma entidade objetiva no sentido platônico correto ou incorreto da pré-existência das ideias”, embora se comparado com a experiência hic et nunc do indivíduo particular, “ele tem uma certa objetividade bastante definida”. “Dentro de cada configuração estrutural histórica e dinâmica, podemos discernir uma ‘intenção básica’ característica, que o indivíduo torna sua na medida em que sua própria experiência passa a ser determinada pela ‘configuração estrutural’ como tal” (p.105); e o conservadorismo é exatamente essa tal configuração objetiva, dinâmica e historicamente desenvolvida. Assim, somente quando a natureza peculiar da objetividade de uma configuração estrutural dinâmica for apreendida pode-se distinguir um comportamento conservador de um tradicionalista. Pois, o comportamento tradicionalista é quase que totalmente reativo, já o comportamento conservador é significativo, em especial, na sua relação com as circunstâncias que mudam de época para época. 

2. O ambiente sociológico do conservadorismo moderno
“O conservadorismo moderno difere do tradicionalismo primordialmente pelo fato de ser função de uma situação histórica e sociológica particular. O tradicionalismo é uma atitude psicológica geral que se expressa em diferentes indivíduos como uma tendência a se apegarem ao passado e como temor às inovações. [...] O tradicionalismo é essencialmente uma dessas inclinações ocultas que cada indivíduo inconscientemente abriga dentro de si mesmo. O conservadorismo, por outro lado, é consciente e reflexivo desde o princípio, na medida em que surge como um contra-movimento em oposição consciente ao movimento progressista altamente organizado, coerente e sistemática” (p.107).

De acordo com Mannheim (1986), os problemas estruturais comuns a todos os estados modernos incluem os seguintes: I) a realização da unidade nacional;  II) a participação do povo no governo do país; III) a incorporação do estado na ordem econômica mundial; IV) a solução das questões sociais. Segundo ele, o conservadorismo moderno surgiu tardiamente na história e foi se desenvolvendo a partir da combinação de vários fatores históricos e sociais: 
I) a situação das forças histórico-sociais deve deixar de ser estática e se tornar um processo dinâmico de mudança orientada; 
II) a dinâmica desse processo deve, cada vez mais, derivar das diferenciações sociais. Diferentes classes devem surgir como reação aos acontecimentos de forma mais homogênea;
III) as ideias devem também ser diferenciadas segundo as linhas e as principais tendências do pensamento, quaisquer que sejam as misturas e sínteses que possam ser aí produzidas;
IV) essa diferenciação social deve assumir um caráter cada vez mais politico. Em resumo, Mannheim (1986) afirma que o desenvolvimento e a difusão generalizada do conservadorismo, diferenciado do mero tradicionalismo, devem-se ao caráter dinâmico do mundo moderno. Enfim, para ele, o ambiente sociológico do conservadorismo se constrói quando se entende que o tradicionalismo só pode se tornar conservadorismo numa sociedade na qual a mudança ocorre através do conflito de classes.

3. A morfologia do pensamento conservador
Nesta discussão final, Mannheim (1986) destaca que o conservadorismo pode ser estudado sob dois pontos de vista: como uma unidade, como o resultado relativamente auto-suficiente e totalmente desenvolvido de um processo evolutivo, quanto se pode enfatizar seu aspecto dinâmico e estudar-se o processo genético que deu origem ao produto final. Dessas abordagens, pode-se chegar ao pensamento conservador e tentar descobrir o problema chave que domina seu crescimento e torna sua interpretação possível. Assim, ele afirma que, a priori, é preciso que se compreenda: 

a) A  intenção básica por trás do pensamento conservador, o qual, de fato, é primordialmente nada mais do que o tradicionalismo tornado consciente. O autor, ao elencar os problemas  chave que permeiam o caráter do conservadorismo, ressalta que “uma das características mais essenciais desse modo de vida e desse pensamento conservador parece ser a forma como ele se apega ao imediato, o real, o concreto” (p.111). “Outro conceito chave para a análise dos diferentes estilos de pensamento e formas de conhecimento é o da ‘liberdade’. O liberalismo revolucionário entendia por liberdade, na esfera econômica, a libertação do indivíduo em relação a suas ligações medievais com o estamento e as corporações” (p.114). Essa liberdade não é, todavia, a habilidade de agir dessa ou daquela maneira, segundo decisões fundamentalmente arbitrárias; liberdade seria, pois, a habilidade de se comportar e viver de acordo com o próprio íntimo, ou seja, sua individualidade que não aceita leis e regulamentos exteriores. Daí, Mannheim (1986) nos coloca frente ao aspecto qualitativo do pensamento conservador.

Outro ponto relevante levantado pelo autor diz respeito ao conflito básico que existe entre progressismo e conservadorismo.  Aqui  ele  ressalta  que  “o  pensamento progressista não encara apenas o real em termos de suas potencialidades, mas também em termos de um modelo. O pensamento conservador, por outro lado, tenta encarar o real como produto de fatores reais, além disso, também tenta compreender o modelo em termos do real” (p.120). De modo analítico, enfim, o autor nos apresenta várias características sobre o aspecto morfológico do pensamento conservador (pp.125-126): 
- sua natureza qualitativa;
- sua ênfase no concreto em contraposição ao abstrato;
- sua aceitação da realidade presente duradoura comparada com o desejo progressista da mudança;
- a simultaneidade ilusória que ele atribui aos acontecimentos históricos comparada com a concepção linear liberal do desenvolvimento histórico;
- sua tentativa de substituir o indivíduo pela propriedade territorial com base na história;
- sua maior preferência pelas unidades sociais orgânicas do que pelas unidades aglomeradas, tais como as “classes”, preferidas pelos seus oponentes.

Todavia, Mannheim (1986) é claro ao finalizar que esses traços característicos individuais não pretendem somar um conceito que representasse o “conservadorismo” como tal, já que os exemplos que expõe tratam-se apenas de ver além deles, de estudar sua intenção básica, seu desdobramento e, finalmente, compreender sua importância funcional com relação ao processo social geral.   

b) O cerne teórico do pensamento conservador  é o outro ponto levantado na análise de Mannheim (1986), o qual trata de entender se há algum problema no centro do conservadorismo. Nesta reflexão, portanto, ele coloca como problema-chave para o conservadorismo sua oposição ao pensamento do direito-natural.  Isto porque  “o pensamento conservador surgiu como uma corrente independente quando foi forçado a assumir uma oposição consciente ao pensamento revolucionário burguês,  à forma de pensamento do direito-natural. [...] O conservadorismo não queria apenas pensar ‘alguma coisa diferente’ de seus oponentes liberais; ele queria pensá-lo diferentemente e esse foi o impulso que forneceu aquele toque especial que o transformou em uma nova forma de pensamento” (p.128).

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